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Liderança

Papel do líder na mudança: como conduzir a adoção de tecnologia

O líder dá o motivo da mudança, decide com a equipe o que muda no processo, usa a ferramenta primeiro, abre tempo para aprender e acompanha o uso até a tecnologia virar rotina.

Caroline da CostaPublicado em 12 min de leitura
Mulher de pé escreve num quadro branco diante de uma equipe sentada em volta de uma mesa longa de reunião com notebooks
Foto: Christina @ wocintechchat.com M / Unsplash
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O papel do líder na mudança tecnológica é fazer a ferramenta nova virar o jeito normal de trabalhar. Comprar e instalar é só o começo. Cabe ao líder o que vem depois: explicar por que a empresa está mudando, decidir com a equipe o que muda no processo, usar a ferramenta antes de cobrar, abrir tempo para o time aprender, tratar a resistência como informação e acompanhar o uso até ele se firmar.

Na prática, esse papel fica dividido entre duas pessoas. Quem está no topo, o dono ou o diretor, responde pelo porquê e pela prioridade. O gestor direto responde pelo como, porque é com ele que cada pessoa tira dúvida, reclama e, aos poucos, troca o hábito antigo pelo novo. Quando um dos dois falha, a ferramenta fica instalada e quase ninguém usa.

Qual é o papel do líder na mudança?

A Prosci, empresa que pesquisa gestão de mudanças há mais de 25 anos, reúne nos seus relatórios de boas práticas em gestão de mudanças mais de 10.800 respostas de profissionais de 101 países. Desde 1998, o fator que mais contribui para o sucesso de uma mudança é o mesmo: um líder que conduz a organização de forma ativa e aparece durante todo o processo. Nas pesquisas da Prosci, esse líder é o patrocinador: quem autoriza a mudança, garante os recursos e responde pelo resultado, em geral alguém da diretoria. Nos projetos com patrocinadores extremamente eficazes, a chance de atingir os objetivos foi de 79%. Com patrocinadores extremamente ineficazes, caiu para 27%.

Numa adoção de tecnologia, aparecer quer dizer fazer estas coisas:

  • Dar o motivo. Explicar qual problema a tecnologia resolve, com a linguagem da operação. "A produção do dia só chega à planilha na manhã seguinte" convence mais do que "vamos ganhar produtividade".
  • Decidir o que muda no processo. Ferramenta nova em cima de processo confuso só faz o erro acontecer mais rápido. Antes de ligar qualquer coisa, vale desenhar com a equipe como o trabalho acontece hoje, e o passo a passo do mapeamento de processos ajuda nessa parte.
  • Usar primeiro. Se o líder continua pedindo o relatório na planilha antiga, a equipe entende que a ferramenta nova é opcional.
  • Abrir espaço para aprender. Aprender leva tempo, e esse tempo sai de algum lugar. Ajustar metas nas primeiras semanas faz parte do custo da mudança.
  • Ouvir e ajustar. A reclamação da equipe costuma trazer informação que o fornecedor não tem: o caso que a ferramenta não cobre, o campo que falta, o passo que ficou duplicado.
  • Sustentar. Voltar ao assunto nas reuniões de rotina até o novo jeito virar padrão, inclusive depois que a novidade passou.
Homem aponta para a tela de um notebook enquanto explica algo a um colega sentado ao lado
Quem lidera usa a ferramenta junto com a equipe antes de cobrar o uso. Foto: Quilia / Unsplash

Por que a tecnologia nova não pega sem a liderança?

Porque as pessoas olham mais para o que o líder faz do que para o que o comunicado diz. Uma pesquisa do Gallup sobre o apoio do gestor à adoção de IA, feita em maio de 2025 com 19.043 trabalhadores dos Estados Unidos, mostra o tamanho desse efeito. Nas organizações que já começaram a implantar IA, só 28% dos funcionários concordam totalmente que o gestor apoia de forma ativa o uso da tecnologia pela equipe. Quem tem esse apoio tem 2,1 vezes mais chance de usar IA algumas vezes por semana ou mais e 6,5 vezes mais chance de achar úteis as ferramentas que a empresa oferece.

O mesmo levantamento descreve o que esse apoio significa na rotina: o gestor usa a ferramenta, responde às dúvidas e mostra como ela se liga ao trabalho de cada um. Para isso, ele não precisa de conhecimento técnico avançado.

No Brasil, a Pintec Semestral 2024, pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística com indústrias de 100 ou mais empregados, perguntou o que dificulta a adoção de tecnologias digitais avançadas, IA entre elas. Entre as que já usam essas tecnologias, o custo alto ficou em primeiro lugar (78,6%) e a falta de pessoal qualificado em segundo (54,2%), segundo a Agência Brasil. Entre as que não usam, a falta de gente qualificada também foi o segundo motivo (60,6%). O custo pesa, mas se resolve com orçamento. Formar gente que saiba usar bem acontece dentro de casa e depende muito do líder de cada área.

O estudo AI at Work do BCG, publicado em junho de 2026 com 11.749 trabalhadores de 14 mercados, vai na mesma direção. Ter uma estratégia clara aumenta em 25 pontos percentuais o impacto mensurável da IA no negócio, enquanto ferramentas melhores, sem estratégia e sem redesenho do trabalho, mexem cerca de 5 pontos. Estratégia e redesenho do trabalho são decisões que cabem à liderança.

Dono, diretor e gestor direto: quem faz o quê?

A pesquisa da Prosci também mostra que a equipe quer ouvir mensagens diferentes de pessoas diferentes. A maioria prefere ouvir os motivos de negócio do principal executivo da empresa. Sobre o impacto no próprio trabalho, 58% preferem ouvir o supervisor direto. Numa empresa de porte médio, isso quer dizer que o dono não pode delegar o porquê, e o gestor de área não pode terceirizar o como.

QuemO que faz na mudançaO que a equipe precisa ouvir deleErro comum
Dono ou diretorDefine a prioridade, garante orçamento e tempo, aparece nos momentos de decisãoPor que a empresa está mudando e o que acontece se nada mudarAnunciar na reunião geral e sumir
Gestor diretoTraduz a mudança para a rotina da área, acompanha o uso, ajusta metas enquanto o time aprendeO que muda no meu trabalho, o que eu ganho e quem me ajudaAchar que o treinamento do fornecedor resolve sozinho
Multiplicador da equipeTira as dúvidas do dia a dia e leva ao gestor o que não funcionaComo se faz na prática, no caso realVirar a única pessoa que usa a ferramenta
RHPrepara os gestores antes da equipe, organiza o treinamento e cuida da comunicação internaComo fica a minha função e o meu desenvolvimentoEntrar só na hora do treinamento

O gestor intermediário é quem mais sofre nessa história. Recebe a decisão de cima, a resistência de baixo e, muitas vezes, nenhuma preparação. Por isso a ordem importa: converse com os gestores antes de falar com a equipe. Dê a eles o motivo da mudança, o que vai acontecer com as funções e respostas para as perguntas que vão aparecer na primeira semana, como "vou perder meu emprego?", "quando vou ter tempo de aprender?", "e se a ferramenta errar?" e "quem eu chamo quando travar?".

O que o líder faz antes, durante e depois da implantação?

Cada fase pede uma coisa diferente de quem lidera.

FaseO que o líder fazSinal de que está funcionando
AntesDefine o problema com a equipe, desenha o processo, escolhe quem testa primeiro e decide o que fazer com o tempo economizadoA equipe sabe explicar com as próprias palavras por que a mudança vai acontecer
Primeiras semanasUsa a ferramenta na frente do time, faz uma conversa curta por semana sobre o que travou e ajusta as metasAs dúvidas mudam de "como eu entro?" para "dá para fazer isto também?"
Depois de alguns mesesLeva um indicador do processo para a reunião de resultados, desliga o caminho antigo, revisa o processo e inclui a ferramenta no treinamento de quem entraO trabalho segue pelo caminho novo mesmo quando ninguém está cobrando

Antes de a ferramenta chegar

O ponto de partida é o problema. Reúna quem faz o trabalho e pergunte onde ele trava. A resposta costuma mostrar se a tecnologia escolhida resolve mesmo aquele gargalo ou se o problema está em outro lugar, como uma etapa de aprovação que ninguém sabe por que existe.

Nesta fase o líder também precisa decidir o que vai acontecer com o tempo que a ferramenta economizar. Na mesma pesquisa do BCG, 42% dos usuários frequentes de IA na linha de frente dizem economizar pelo menos um dia inteiro de trabalho por semana, mas 66% dizem receber pouca ou nenhuma orientação sobre o que fazer com esse tempo. Essa decisão cabe ao líder e precisa estar tomada antes de a ferramenta entrar no ar, porque é uma das primeiras perguntas que a equipe faz.

Nas primeiras semanas

É a fase em que o hábito antigo puxa de volta. O líder ajuda quando usa a ferramenta na frente da equipe, inclusive errando, e quando mantém uma conversa curta e fixa, de 15 minutos por semana, para listar o que travou. Também é dele a decisão de ajustar as metas durante o aprendizado, para que ninguém precise escolher entre bater o número e aprender a ferramenta.

Escolher um multiplicador na equipe também ajuda. Ele tira dúvidas na hora e leva ao gestor o que precisa ser corrigido com o fornecedor ou com o TI.

Depois que a novidade passa

Depois de alguns meses, o risco é o assunto sair da pauta. Um jeito de evitar isso é levar para a reunião de resultados da área um indicador do processo, como a parcela do trabalho que já passa pelo caminho novo. Marque uma data para desligar o caminho antigo, porque a planilha paralela vira refúgio permanente. Revise o processo com a equipe, já que o uso real revela passos que ninguém previu. E coloque a ferramenta no treinamento de quem entra, senão ela se perde a cada troca de pessoal.

Como o líder deve lidar com a resistência da equipe?

Antes de cobrar mais forte, vale descobrir o motivo. Quase sempre existe um, e cada motivo pede uma decisão diferente de quem lidera:

  • Se o receio é perder o emprego ou a importância, a decisão é sobre o destino do tempo economizado e das funções. O líder precisa ter essa resposta antes de pedir adesão.
  • Se a queixa é falta de tempo, a decisão é sobre a meta. Enquanto ela continuar a mesma, a queixa é legítima.
  • Se a equipe diz que a ferramenta não serve para o caso real, a decisão é parar e conferir. Às vezes a equipe tem razão, e o ajuste é na configuração ou no processo, junto com o fornecedor.
  • Se é hábito, a decisão é de prazo: marcar a data em que o caminho antigo deixa de existir e ser o primeiro a cumpri-la.

O jeito de conduzir a conversa com o time sobre o medo de ser substituído, e de organizar o treinamento, está no artigo sobre como preparar a equipe para usar IA.

A resistência que mais atrasa uma implantação costuma ser a do próprio líder. O gestor que concorda na reunião e continua pedindo o relatório do jeito antigo ensina à equipe que a mudança é negociável. Quando isso acontece, a conversa precisa ser com ele, antes de qualquer cobrança ao time.

Exemplo: uma indústria de alimentos troca a planilha de produção pelo apontamento na linha

Imagine uma fábrica de chocolates e confeitos no interior do Paraná, com cerca de 160 funcionários em dois turnos. O exemplo é ilustrativo. Hoje, cada supervisor anota num papel ao lado da linha o que foi produzido, as paradas e as perdas. No fim do dia, alguém do planejamento e controle da produção (PCP) passa tudo para uma planilha. Os números chegam com um dia de atraso e nem sempre fecham. A diretoria decide implantar um sistema de apontamento no chão de fábrica: um tablet em cada linha, onde o operador registra o início e o fim de cada lote, as paradas com o motivo e as perdas, na hora em que acontecem.

Na primeira tentativa, o diretor industrial anuncia o sistema na reunião mensal, o fornecedor treina os supervisores numa tarde e os tablets são instalados numa segunda-feira. Três semanas depois, a planilha continua de pé. Os operadores registram as paradas só no fim do turno, de memória, porque parar para apontar atrasa a linha e a meta de produção não mudou. Parte deles desconfia que o sistema serve para vigiar quem para mais. E o gerente de produção segue pedindo o fechamento do dia na planilha, porque é nela que confia.

Funcionária de touca, máscara e luvas ajeita bandejas de chocolate numa esteira, com outros dois trabalhadores ao fundo numa fábrica de alimentos
Na linha de produção, registrar a parada na hora depende de a meta e o líder abrirem espaço para isso. Foto: Walter Otto / Unsplash

Na segunda tentativa, o sistema é o mesmo e a liderança age de outro jeito:

  1. Antes de qualquer anúncio, o diretor e o gerente de produção se reúnem com os supervisores e combinam para que servem os dados: achar a causa das paradas e das perdas, e não punir operador. Cada supervisor leva essa mensagem ao próprio turno.
  2. O gerente passa os primeiros dias na linha, nos dois turnos, apontando junto com os operadores, e anota o que atrapalha. A lista de motivos de parada, por exemplo, tem itens que não existem na fábrica e não tem "falta de embalagem", o motivo mais comum. O fornecedor ajusta a lista.
  3. A meta das primeiras semanas desconta o tempo de aprender a apontar.
  4. Um operador de cada turno vira multiplicador e tira as dúvidas na hora.
  5. A planilha ganha data para acabar, e o gerente passa a abrir a reunião diária com o painel do sistema.
  6. Toda sexta, uma conversa de 15 minutos olha a parada que mais se repetiu na semana e o que foi feito com ela.

Quando, numa dessas conversas, a falta de embalagem aparece no topo e o setor de compras muda o pedido ao fornecedor, os operadores veem o apontamento resolver um problema deles, e registrar na hora deixa de parecer vigilância.

O líder precisa entender de tecnologia?

Precisa entender o suficiente para usar e para fazer boas perguntas. Programar não entra na lista. O que ajuda é saber o que a ferramenta faz bem e onde erra no trabalho da própria área, ter testado com casos reais antes de apresentar ao time, conhecer as regras de uso de dados da empresa (o que pode e o que não pode entrar na ferramenta, inclusive pela LGPD) e saber a quem recorrer quando algo der errado.

Se a empresa ainda está decidindo por onde começar, o guia sobre como implantar IA na empresa mostra a sequência completa. O desenvolvimento de liderança é uma das frentes da Pragma, ao lado de processos e tecnologia. Para ver onde os gestores da sua empresa precisam de apoio antes da próxima ferramenta chegar, o primeiro passo é agendar um diagnóstico gratuito.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre o patrocinador e o líder da mudança?

O patrocinador é quem tem autoridade para definir prioridade, orçamento e prazo, em geral o dono ou um diretor. O líder da mudança conduz o dia a dia, e costuma ser o gestor da área afetada. Em empresas de porte médio, muitas vezes é a mesma pessoa, e não tem problema, desde que ela cuide das duas partes.

O que fazer quando o próprio gestor resiste à nova tecnologia?

Converse antes de cobrar e descubra o motivo: medo de perder controle, falta de tempo ou dúvida sobre a ferramenta. Envolver esse gestor no teste e nas regras de uso costuma mudar a postura dele. Se ele continuar pedindo tudo no formato antigo, a diretoria precisa tratar o assunto, porque a equipe vai seguir o exemplo dele.

Quanto tempo leva para uma nova tecnologia virar rotina na equipe?

Não existe prazo fixo, porque depende do tamanho da mudança no processo e de quantas pessoas ela atinge. Um bom sinal é quando dá para desligar o caminho antigo sem reclamação e o uso se mantém mesmo sem ninguém cobrando. Até chegar lá, vale manter o acompanhamento semanal.

Quais características ajudam um líder a conduzir mudanças?

Clareza para explicar o motivo da mudança em poucas frases e disposição para aprender a ferramenta na frente da equipe. Ajuda também saber escutar crítica sem levar para o lado pessoal e ter constância para acompanhar o assunto depois que a novidade passa. Carisma ajuda, mas pesa menos do que a coerência entre o que o líder pede e o que ele faz.

Qual é o papel do RH na adoção de novas tecnologias?

O RH prepara os gestores antes da equipe, organiza o treinamento por função e revisa as atribuições quando o trabalho muda. Também ajuda a ler o clima durante a mudança. Queda de engajamento ou aumento de pedidos de desligamento podem ser sinal de uma implantação mal conduzida.

Caroline da Costa

Sobre quem escreveu

Caroline da Costa

Cofundadora e business partner specialist

Conhecida como a Carol do RH, Caroline soma quase uma década de experiência em Gestão de Pessoas e Desenvolvimento Humano e Organizacional. Atua como business partner, com especialidade na estruturação de processos organizacionais, no desenvolvimento de lideranças e na gestão de cultura, clima e retenção de talentos. Seu trabalho alinha pessoas e estratégia para construir líderes preparados, equipes engajadas e performance sustentável.

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